quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O olho

- Sua puta! Onde está o dinheiro? Vais fazer-te de difícil, como é costume? Levas no focinho...
...

Não ouviu a voz que lhe respondeu, voz habitualmente monótona e cansada da vida. Ouviu uma porta a bater. Pé ante pé, em meias, dirijiu-se à porta e espreitou pelo olho. Viu-a de costas, de casaco de fazenda bege, a descer as escadas. O som dos seus passos rápidos ia esmorecendo. Imaginou que ela já tivesse chegado à entrada do prédio de 3 andares.

- Bem - pensou - finalmente voltaste-lhe as costas e bates com a porta. Onde vais agora?

Rapidamente foi à janela, a ver se a via a sair. E lá estava ela, já do outro lado da rua, de passinhos curtos e apressados, com pose decidida, sem nunca ter olhado para cima. Deixou de a ver quando dobrou a esquina do prédio da frente. Alguma vez mais a veria? Aquele olho da porta já tinha bisbilhotado tantas entradas e saídas...


4 comentários:

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    1. Muito, Suri.
      Mas este é um textito ficcionado: apetecia-me escrever, não sabia sobre o quê...e saiu isto. Eu nunca ouvi nem presenciei situações do género, felizmente para mim.

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  2. Fico pasmado com a tacanhez, o atraso, a falta de vergonha na cara de tanta gente neste país. Espanta-me a descoberta de pessoas insuspeitas que têm a noção de que as relações humanas se podem basear no terror e na coação. Se muitas vezes penso na ligeireza com que se bate a porta, noutras fico estarrecido com a dificuldade em fazê-lo.

    É apenas mais um sintoma de que continuamos muito longe de ser um país desenvolvido, muito por culpa da nossa educação como povo.

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    1. Ness, o teu comentário quase que dava um post :)

      Nós e os outros, ora....ou os Nórdicos não têm este problema? Nós é que pensamos que não.

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Olha, apetece-me moderar outra vez! Rais' partam lá isto!

P.S.: Não sou responsável por aquelas letrinhas e números enfadonhos que pedem aos robots que cá vêem ler-nos.