segunda-feira, 11 de junho de 2012

Continuação


Os dois rapazolas reapareceram tal como desapareceram: inesperadamente e surprendentemente. O Zezinho, cabeludo e sebento, com o seu ar de matulão carregava uma mochila preta e trazia na mão um bastão que o ajudava no regresso a casa. O Ricardinho, com bom aspecto, sorridente, também tinha botado corpo e na verdade, estava com melhor aspecto do que o compincha.
Só no dia seguinte, quando os dois se reuniram no largo da igreja, a descoberto dos velhotes e das beatas que entretanto se foram aproximando, é que eles confirmaram o que a padeira, Dª Antónia, tinha segredado ajoelhada ao pároco da aldeia. O que ela não sabia, porque já sofria de surdez avançada, é que as suas confissões segredadas eram ouvidas na igreja por quem mais lá estivesse e foi assim que tudo se espalhou aos sete ventos.
Ora, quando desapareceram, os meninos Zezinho e Ricardinho tinham, um belo dia, acompanhado o Sr. Bonifácio, esposo da padeira desde há 37 anos, na sua carrinha, com a qual entregava diariamente o pão na aldeia e arredores. A partir daqui, e naquela madrugada, deram o salto para o mundo, deixando o seu mundo preocupadíssimo. O que durou pouco, pois semanas depois, chegou à aldeia um bando de forasteiros, homens e mulheres loiros, de tez clara, que fizeram as delícias da aldeola e esquecê-los dos petizes foragidos. Contaram eles, um ao outro e a quem mais se dispôs a ouvi-los, por onde tinham andado e o que tinham feito.
Depois de se terem separado, o Zezinho, mais arrojado, aventureiro e muito confiante nas suas capacidades de orientação e desenrascanço, apanhou boleia de um camionista, bastante simpático e prestável que, porque gostava de viajar acompanhado e não tinha medo de estranhos, lhe deu boleia até à longínqua Holanda. Começou por ajudar na plantação de papoilas e outras flores, até arranjar carcanhol suficiente para adquirir uma bicicleta catita, com a qual andou a percorrer as verdejantes planícies campestres. Mais tarde, e já alojado em Roterdão, onde chegou de bicicleta e donde partiu no porão dum navio de carga, de regresso à terrinha, ainda arranjou trabalho como carregador de paletes no Porto Velho. Lá, tinha conhecido velhos marinheiros e personagens algo suspeitas, com um sentido de honra bastante apurado. Contudo, um dia, sentiu saudades do pão português. E num impulso, abandonando a Duquesa, nome carinhosamente dado à bicla, refugiou-se num navio que iria chegar à Galiza uma semana após a partida. E foi deste modo, após atracar em terras galegas, que depois deu o salto até Vila Praia de Âncora e de seguida para casa.

Lindo de morrer!