sexta-feira, 19 de abril de 2013

O prato mais recente

Uma das pessoas que participou mais discretamente enviou o seguinte texto para outro desafio, a que se associa um bónus, digamos. As regras são semelhantes às do anterior, pois vou alterá-las ligeiramente e acrescentar mais uma:
  • Quem primeiro adivinhar quem é o/a autora e a imagem que lhe serviu de inspiração ficará incumbido de publicar no seu blog outro texto de outro/a autor/a "desconhecido/a", a ser também adivinhado.
  • Cada participante pode mencionar 2 nomes para a pessoa que escreveu, num mesmo comentário, ou noutro posterior e deve sempre fazer referência a uma imagem apenas.
  • A primeira pessoa a adivinhar o/a autor/a + a imagem aludida verá a sua resposta confirmada por mim na caixa de comentários.
  • De seguida, o/a vencedor/a terá que contactar os seus bloggers,  (tal como recentemente fiz com alguns de vós que me lêem e comentam) e informar do que se pretende. Esses bloggers não podem saber quem são os outros contactados.
  • E assim por diante.
Mais uma vez, divirtam-se que é para isso que cá andamos e a vida pode tornar-se demasiado curta enquanto o diabo esfrega um olho.


O Contrato

“Esta é Lisa.” Foi assim que o marido dela a apresentou. Ele observou-a devagar, com o seu olhar acutilante. No rosto sumptuoso dela intuiu uma luz extraordinária. A pele cor de marfim, os negros cabelos, o trajar discreto e elegante. O coração dele saltou, mas não o deu a entender. Acalmou a voz, disfarçou o tremor das mãos, das suas mãos habitualmente firmes e inclinou ligeiramente a cabeça. Ela com ar grave, distante, replicou o gesto dele. Combinaram os termos e condições das visitas. Uma vez por semana, sempre no mesmo local, sempre à mesma hora, sempre a mesma duração. Ele cumpriu o contrato, profissional, religiosamente, como faria com qualquer outro cliente. A distância, o ar alheado dela, faziam-lhe doer o coração. Sofria em silêncio, mas não se denunciava. Gradualmente as suas mãos foram deixando de trair o que o coração sentia. Um dia, ela aproximou-se dele e disse-lhe, baixinho: “Quero-te. Quero-muito. Mas só poderá agora. Poderemos continuar o contrato, mas nunca mais acontecerá.” Ele percebeu então. Ela partilhava os seus sentimentos. E partilhava as suas angústias. Aproximou-se dela e beijou-a, quase como uma brisa a tocar uma flor. Nos braços um do outro, uma gota de suor brilhava ainda no rosto dela, enquanto se encontrava com uma lágrima. Ele nunca soube se a lágrima era ainda de êxtase ou já de saudade. E então, um sorriso como ele nunca tinha visto, suave como uma onda, misterioso como os pensamentos dela, desenhou-se-lhe nos lábios. Ela disse-lhe simplesmente. “Francesco chegará em breve.” O contrato tinha que continuar, haveria de chegar ao fim. Mas o sorriso, aquele sorriso, ele assim o decidiu naquela altura, não podia acabar. Nunca poderia ser esquecido. Tinha que ser eterno. Ele sabia como fazê-lo. E assim o fez.