sexta-feira, 28 de julho de 2006

Auto-elogio, antes de me ir de vez...a sério, prometo que vou já, já.

You Are Animal

A complete lunatic, you're operating on 100% animal instincts.
You thrive on uncontrolled energy, and you're downright scary.
But you sure can beat a good drum.
"Kill! Kill!"

E pronto


O blog vai a banhos. Boas férias para quem vai e bons dias para quem fica.
Deixo-vos aí muito para ler. Usem o rato até lá baixo.
Mas para que não estranhem ou pensem que me tornei demasiado séria, também vos deixo isto:



Não sei quem demonstra ter mais mau gosto: se a pessoa tatuada, se quem me enviou a foto por e-mail (ai que ele dá-me um tiro um dia destes), se eu por partilhar convosco uma aberração destas. Gosto de tatuagens, mas esta bate qualquer uma aos pontos no que toca a arte corporal.
Será que ele precisou de anestesia para fazer uma anormalidade destas? Será que o/a tatuador/a não se sentiu constrangido/a por pegar em coisa alheia? E será que quando tiver 73 anos, a serpente ainda se exibirá lustrosa e potente?
Quem lhe decepasse a cabeça, a ver se ele aprendia a não brincar com coisas sérias!

Aurora premonitória

Hoje ia ser um dia diferente, ela sentia-o. Tinha acordado mais cedo, inclusive sem necessidade de despertador, o que não era habitual. Sentia-se bem, forte, determinada, sorridente, com vontade de enfrentar o mundo de alma e cara lavadas. A manhã, ainda orvalhada mas já evidenciando um dia luminoso e ameno, só podia ser um bom prenúncio. E com um dia assim, há que o aproveitar da melhor maneira, de máquina fotográfica em redor do pescoço e toca a dar ao dedinho, pensou ela. O duche matinal foi substituído por um longo banho de imersão. Só não voltou a adormecer porque a música de fundo seleccionada era demasiado ... sonora. Mas não tão barulhenta que pudesse incomodar os seus vizinhos. O violino electrónico da Vanessa Mae incutia-lhe ritmo, energia, vontade de acelerar, de dançar, de sapatear enquanto preparava o seu pequeno-almoço...Não, hoje não ficaria em casa a tomar o seu pão seco, torrado, do dia anterior e a ver as notícias da manhã. Sem se preocupar em arrumar o que já tinha desarrumado, arranjou-se, colocou a máquina dentro da mochila, saltou para dentro dos seus ténis velhos e algo mal cheirosos e saiu porta fora, com um ar confiante. Nas escadas cruzou-se com a Dª Albertina que já regressava a casa vinda da padaria. Deu-lhe os "bons dias" em tom cantado e com um sorriso franco. O aroma a pão quente acabado de sair do forno aumentou-lhe o apetite e recordou-a que, na véspera, o seu jantar tinha sido apenas uma taça de cereais em frente a uma televisão deplorável. É o que dá não ter horas para sair do escritório. Sai-se quando o trabalho acaba, não quando o relógio manda. Como o trabalho parecia nunca acabar, ontem saiu a horas indecentemente tardias, depois de o guarda-nocturno ter feito a sua primeira ronda ao edifício. A Dª Albertina foi a primeira pessoa com quem tomou conhecimento quando decidiu mudar-se para aquele prédio. Uma senhora distinta, com cabelos brancos que impunham respeito, sempre vestida com bom gosto, sempre maquilhada e perfumada, sempre pronta para qualquer ocasião. Fazia-a lembrar a sua avó materna. A Dª Albertina era uma pessoa interessantíssima que sabia contar histórias, que sabia encantar quem a escutasse. Já tinham passado alguns serões juntas e sempre se sentiu bem acolhida por esta senhora que emanava elegância, confiança e sabedoria, próprias duma pessoa que soube viver a vida e respeitar os outros. Como a invejava! Mas hoje não ia deixar-se levar por estes pensamentos deprimentes, Hoje tinha outros planos e nada nem ninguém iriam interferir. Na padaria, onde ainda não era considerada cliente habitual, sentiu o olhar inquisidor do dono, como que a perguntar "o que é que lhe deu para vir cá hoje e tão cedo?". "Pois bem, nem o teu sorriso mais simpático me vai fazer falar e contar-te os meus porquês", pensou ela. Já numa mesa a um canto, deu uma vista de olhos pelos jornais diários. Começou, como sempre fazia desde que o acidente ocorreu, pelo obituário - ninguém que conhecesse - e ia lendo as letras gordas, os títulos, das últimas para as páginas iniciais. Não estava com paciência para leituras demoradas. Sentia-se excitada, a fervilhar por dentro. Não sabia muito bem porquê, mas gostava desta sensação. Saber que a sua preciosa máquina fotográfica iria daqui a pouco recomeçar a registar aqueles detalhes tão óbvios para o mais comum dos mortais, mas tão escondidos para a maioria dos transeuntes que passavam sem ver, acalentava-lhe ainda mais a esperança de um dia fantástico. Sentia que hoje iria recuperar um dos seus velhos hábitos que tanto prazer lhe tinha dado no passado. Tinha neste momento a oportunidade de escolher por onde queria começar. Decidiu-se pela Avenida do Mar, que sabia que terminava na zona degradada da cidade onde ainda habitavam alguns pescadores e as suas numerosas famílias. Tinha esperança de poder encontrar aquele que a retirou do carro acidentado, aquele que não teve nojo de tocar na sua pele naturalmente escura, aquele que não olhou para o lado perante duas pessoas pretas a precisarem urgentemente de ajuda médica.