quinta-feira, 24 de março de 2011

Dúvida maternal

"Mãe, esta senhora deve ter sido uma p-u-t-a", disse ele algo a medo, por saber que estava a articular uma palavra feia.
"Porque é que dizes isso?", perguntei eu com um ar de grande espanto.
"Porque afinal ela casou-se com oito homens", retorquiu ele.
"Não, meu amor, lá porque teve oito maridos, não quer dizer que tenha sido isso, é relativo", desenrasquei-me eu, esperando que o assunto ficasse por ali. E ficou, mas pôs-me a pensar.

Se uma mulher tiver oito parceiros ou companheiros ou o que quer que lhes chamem, é ou não é uma "p-u-t-a"? Sê-lo depende do número de parceiros, do seu estado civil, se recebe ou não contrapartidas financeiras ou de quê?
Se um homem tiver oito parceiras ou companheiras ou o que quer que lhes chamem, é ou não, e cito o meu filho "um pinga-amor"?

E como é que se explica esta diferença de tratamento social relativa ao género humano?

Da passagem

À medida que o tempo passa e a nossa vida é reduzida, aumenta o número de mortes a que assistimos. Pessoas que nos habituámos a ver na televisão, no cinema, pessoas do mundo da música que escutamos quase desde que nascemos, pessoas que nos fizeram companhia na leitura durante a nossa infância, pessoas que nunca conhecemos pessoalmente mas que fazem parte da nossa vida, passada e presente. Estas mortes anunciadas e certas, que acontecem cada vez mais frequentemente, deixam-me triste, saudosa, com a sensação dum vazio semi-preenchido com as memórias que essas pessoas deixaram. E questiono-me quando e como é que chegará a minha vez.
Deprimente.