terça-feira, 25 de junho de 2013

Banalidades mentais

Desde a semana passada que ando a vigiar estudantes. Digo já que a profissão tem tarefas chatas, burocráticas, muito chatas, momentos cómicos, alturas deprimentes, horários fantásticos, férias de 3 meses no verão, ordenados que ultrapassam os 2000 euros por mês....UH?? Ui, desculpem, já divagava. Voltemos ao que me trouxe aqui e agora. Estava eu a dizer que a tarefa de ser vigilante num exame, seja ele de 4ºano ou de 12ºano, é a maior seca , na profissão, à face deste planeta. Dos outros não sei.
Poupo-vos à leitura das burocracias e actos robóticos que caracterizam a tarefa aborrecidérrima. Já não vos pouparei - a não ser que não me leiam, e isto eu já não consigo controlar - aos meus pensamentos. Ao contrário do que se diz por aí, um vigilante de exames não pode: conversar com o seu parceiro de vigilância, não pode ler o jornal, não pode fazer sudoku nem palavras cruzadas, não pode mandar SMSs aos amigos, não pode dar uma bufa nem um arroto e se tiver que ir à casa de banho sai da sala do exame, acompanhado, à qual já não regressa, sendo substituído por outro vigilante e não pode dormir encostado no ombro do outro. Pode estar sentado, pode levantar-se, pode olhar para os alunos, pode olhar lá para fora e ver se chove, pode andar por entre as carteiras desde que os saltos altos (se os usar) não incomode os examinandos, pode fazer florzinhas nas folhas de rascunho e pode pensar. Isto durante hora e meia se o exame for de equivalência à frequência, durante duas horas, no mínimo se o exame for nacional, e durante três horas e meia se o exame for o de Geometria Descritiva.
-E então, Pseudo Maria, em que pensas tu enquanto vigias? - perguntam vocês.
-Eu penso - respondo-vos eu - nos seguintes temas:
Começo por observar as caras da malta que é 23 anos mais nova do que eu. E depois páro para observar melhor as borbulhas e o acne de uns e penso "que sorte eu tive de não passar por esta fase". Depois observo as sapatilhas. São poucas as miúdas que usam algo que não seja sapatilhas. Os rapazes usam-nas de marca. Tiro apontamentos mentais em relação aos modelos, não vá o petiz pedinchar umas e eu não saber ao que é que ele se refere. Eles e elas vestem-se de igual: jeans, t-shirts, alguns deles usam bermudas, algumas delas usam tops e calções e penso que "se fossem filhas minhas não saiam à rua assim". Penso nas lista de compras, na qual incluo sempre leite e água e morangos. Penso nas aulas que ainda tenho que dar até 11 de Julho e na vontade que os catraios vão ter quando regressarem a elas, daqui a 2 dias. Penso no que é que os examinandos estarão a pensar enquanto fazem os seus rabiscos. Penso "será que ele ou ela pensa que eu penso que ele ou ela quer copiar? Mas por onde? Como?" Possivelmente eles não pensam nada disto, mas eu penso que sim, que pensam, como se naquele momento eles não tivessem mais nada em que pensar. Penso no tempo que as miúdas demorarão a pintar as unhas dos pés e das mãos, no caso das que usam sandálias e calçado aberto e penso quando é que irei arranjar as minhas, as dos pés, que só por acaso, consegui fazer hoje, ao final do dia. Penso que no final do exame, eu e o parceiro vigilante teremos que, pela terceira vez, rever os cabeçalhos dos exames, pois as regras assim o obrigam e penso que o tempo nunca mais passa. Penso que para a maior parte dos examinandos o tempo passou depressa demais.

Detalhes cá da casa - X

Ir comprar uma das verdes, ao Porto, custou-me mais do que o preço da almofada em si. Valeu pela excelente companhia dessa tarde.