segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Desabafo

Voltei sem ele. Foda-se!

Conto de Natal - II

Depois de me ter surpreendido a mim mesma o ano passado com uma quantidade infindável de disparates num único post acerca do natal, venho hoje tentar fazer o mesmo.
Ora bem...
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A D.ª Miquelina andava no mercado a saltitar de banca em banca à procura do melhor bacalhau da Noruega e dos respectivos grelos para a consoada deste bendito ano de 2006.
Estava a ser um dia algo agitado, mais agitado do que ela estava habituada. E tudo começou logo pela manhã, com o bêbado do seu vizinho, o Sr. Joaquim, a entrar pelo seu quintal dentro e a vociferar palavrões nada abonatórios da honra da sua própria esposa, a Teresinha, coitada desta. O pobre coitado, já podre de bêbado porque ao pequeno-almoço tinha tomado apenas dois finos, ao chegar a casa depois da visita matinal à tasca do TiZé, tentou desesperadamente abrir a porta da frente. Enfiou e retirou a chave várias vezes, mas esta teimava em não accionar nada. Tanto enfiou e retirou que acabou por partir a chave ficando parte dela dentro da fechadura e a outra parte na sua mão. Ficou estupefacto! Com este esforço todo e com tanto abanar da porta, a coroa de Natal que a sua Teresinha tinha colocado para dar as boas-vindas e desejar boas festas caiu-lhe em cima da cabeça. Sendo baixote e estando em estado vacilante devido à bebida ingerida, havia poucas probabilidades de não lhe acontecer nada. E o que é que lhe aconteceu? - perguntam vocês. Ora, esta coroa era obra caseira: feita com azevinho recolhido do seu jardim, entrelaçada com arame anteriormente usado no arranjo do galinheiro lá de casa - logo ferrugento - e decorada com pedacinhos de madeira envernizada a vermelho enfeitados com pioneses e laçarotes de veludo amarelo. Sendo obra caseira, era um bocado deselegante e abrutalhada, pois nem a sua Teresinha nem o próprio Sr. Joaquim tinham mãos de fada ou gosto sequer para fazer algo digno de nome natalício. Como tal, o que lhe caiu em cima da testa e do olho direito, a ponto de lhe causar arranhões na pálpebra e de o obrigar a pôr uma pala no olho, foi simplesmente um amontoado de folhas verdes com picos salpicados de lascas de madeira mal-pintadas e de bocados de veludo velho e mal-cheiroso que já tinha servido de toalha a cobrir uma qualquer mesinha de canto da sala de jantar que só era usada em dias de festa e quando o padre lá passava para bebericar um tintinho da adega.
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Mas adiante, que já nos desviámos da D.ª Miquelina que andava à procura do seu bacalhau e dos seus grelinhos frescos e verdejantes...
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Este ano, ela fazia questão de encontrar o melhor do mercado, já que à mesa iriam estar vários convivas: o seu sobrinho há muito emigrado na França e que regressaria dali a dias com a sua Madame, o Padre Quitério, pároco duma aldeia vizinha e com quem a D.ª Quitéria foi desenvolvendo fortes laços de amizade que perduram desde que o Padre Quitério pôs pés na aldeia, há 22 anos atrás, a Srª. Albertina, responsável pelo Centro de Dia lá da terrinha, e por fim, o Sr. Salomão, o merceeiro, que lhe tinha vendido umas passas e uns figos secos vindos da Turquia, supostamente de alta qualidade e fino sabor. Eram estes os seus ilustres comensais, a quem ela desejava imensamente agradar, e como tal nada podia falhar. O seu Bolo-rei, afamado por aquelas bandas por ainda conter a fava da sorte, era dos mais solicitados pelas suas vizinhas. Este ano, no entanto, só os prepararia em número suficiente para os seus convidados. Já não possuía as forças de antigamente para amassar a massa à mão. Mas à sua mesa não iriam faltar as rabanadas, os bilharacos nem o pão-de-ló recheado com ovos moles, não senhora! E o que dizer do seu bacalhau assado com batatas a murro, que ela preparava com tanto afinco e carinho, sempre bem acompanhado de quantidades generosas de alho e azeite onde se molhavam os pedacinhos de broa cozida no próprio dia no seu forno a lenha? Divinal!
Quanto aos seus grelos, nada difíceis de encontrar, já que estes abundavam, verdes e fresquinhos, por todos os cantos e esquinas do mercado. Nem precisou de regatear, como era seu hábito de anos, de tão baratos estavam.
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Terminadas as comprinhas, logo se dirigiu à sua casinha, já muito bem enfeitada com tudo o que faz alusão a esta época cristã, tanto por dentro como por fora.-A contrastar com aquilo a que os seus vizinhos, a Teresinha e o Sr. Joaquim, chamavam de coroa de natal, a D.ª Miquelina tinha enfeitado a sua entrada com um espantalho vestido de pai natal que servia três propósitos: dar as boas-vindas a quem lhe batesse à porta nesta altura do ano, afugentar os pássaros que insistentemente ainda pousavam no seu jardim à procura de migalhas e sementes e ainda desejar UM FELIZ NATAL, CHEIO DE SAÚDE, a todos que se aproximassem da sua humilde propriedade.
E assim começou a sua tarde de véspera de Natal, metendo as mãos no seu bacalhau e nos grelos fresquinhos da D.ª Antónia.
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(Eu sei que ainda é cedo, mas queria saber qual a sensação de se ser a primeira em alguma coisa; só isso)