domingo, 1 de setembro de 2013

Alguém transmontano - editado, porque acho que não lhe foi dado a devida importância, nem de minha parte nem dos leitores

Possivelmente alguns de vós terão já visto a foto desta senhora algures. Se não for o caso, aconselho a que lá vão, pois vale bem a viagem. E mais não digo, espero que seja algum de vós a dizer o resto que intencionalmente omiti...
Intencionalmente omiti o local de origem desta foto e quem é a senhora e passo agora a esclarecer.
Esta senhora é a Gabriela, matriarca falecida e dona original do Restaurante - Residêncial "A Gabriela", localizado na vila de Sendim, concelho de Miranda do Douro.
Há 16 anos, fui professora na  então EB 2/3 de Sendim. Depois do choque e lágrimas iniciais, causados pela distância em relação à "minha casa", pelos cerca de 280 Kms que teria que percorrer por estradas que hoje foram substituídas por IPs e ICs, com e sem portagens, que hoje se percorrem em menos 45 minutos do que nessa altura, e pelo facto de ter que ficar separada dos pais e namorado e amigos, estava pois na altura de ficar a conhecer a região.
Hoje digo, com todo e respeito e carinho pelos transmontanos que conheci, que, apesar da distância, foi um ano muito rico em conhecimentos, passeios e gastronomia. (Pois, eu não seria eu se não metesse comida aqui pelo meio). Durante os anos seguintes, já casada, fiz questão de lá voltar para passar fins-de-semana, se não em Sendim, em Miranda do do Douro. Aliás, o meu filho foi feito precisamente num destes fins-de-semana transmontanos, em pleno Junho. No nosso regresso a Portugal, fizémos questão de por lá passar e pernoitar na terra.
Mas voltando à "Gabriela"...
Inevitavelmente, quem anda por estas terras, de passagem ou com estadia prolongada, como foi o meu caso, tem que fazer refeições na "Gabriela". Este é um restaurante de prato único, não obstante os pratos que constam da ementa apresentada aos "turistas" que lá param. Das dezenas de vezes que lá fui, sempre acompanhada, comi somente a alheira caseira e a Posta à Gabriela, o melhor naco de carne de vitela à face da terra. Acompanhado dum molho cuja receita nunca me foi dada, apesar das minhas solicitações nesse ano, e dum pão caseiro, é de chorar por mais! Quem está responsável pelo restaurante, hoje em dia, são as duas netas da Gabriela original, esta que observam em cima, com o seu bigode e barbicha de bode que metem respeito, a que o meu filho achou imensa piada, duvidando mesmo que a pessoa retratada fosse mulher. Estas duas senhoras, ambas na casa dos cinquenta, pouco ou nada mudaram, no que toca ao atendimento a clientes. Não sendo sofisticadas e profissionais na área da Restauração, no trato com as pessoas, estão longe de serem mal educadas ou antipáticas. São rudes, apresentam aquela rudeza típica transmontana de quem é despachado, não está ali para fazer sala e quer é andar com a vida para a frente, no nosso caso, despachar os clientes para depois irem para a festa em Miranda do Douro. Obviamente, fiz questão de lhes recordar quem eu era, até porque tinha sido professora da Gabriela, a filha e sobrinha destas duas senhoras. O pai da aluna Gabriela, já naquela época funcionário na secretaria da escola, fez-nos companhia ao jantar e brindou-nos com a história "Os dois cangarejos desconfiados", narrada em Mirandês, e a pedido do petiz. A meio da leitura, ouvimos a mulher a berrar-lhe duas vezes, da cozinha: "Despacha-te que a comida está a arrefecer" e "Homem, olha o comer na mesa!". Se o primeiro berro foi delicadamente ignorado, já o segundo teve como reacção uma cara de mau e uma resposta torta, ali mesmo na nossa presença. Nada fora do normal, portanto.
Sendim é aquilo que o MQT chama de "terra de risco ao meio": uma terra atravessada por uma estrada nacional, ladeada por algumas casas de habitação e comércio, pela cooperativa e com um centro urbano construído em redor da igreja, a praça onde se ajuntam as gentes da terra e os seus filhos emigrantes em Agosto. A vila está a morrer. A população diminiu a olhos vistos e prova disso é o número decrescente de alunos na escola, que continua com o mesmo aspecto: menos de 100, quando há 16 anos, a comunidade discente era constituída por quase 300 alunos. Porque foi construído o IC5, paralelo à EN221, hoje já não há necessidade de percorrer os cerca de 46 km que separam Miranda do Douro e o Mogadouro, atravessando as localidades de Duas Igrejas, Sendim, Urrós, Sanhoane. Poupa-se em tempo e distância, mas, para quem vai visitar a zona esporadicamente, perde-se muito da identidade nordestina, pois apenas se avistam montes e terras secas. Quem lá vai, ou para lá vai, sabe ao que vai e desvia-se do IC5. O regresso a Braga durou duas horas e meia, menos 50 minutos do que há 16 anos, o que significa que a Posta da Gabriela está hoje mais acessível, e tão saborosa como antigamente.