sábado, 24 de agosto de 2013

Da Holanda, dos holandeses e da paisagem

Soube-me a pouco, nitidamente a pouco, para quem tinha feito uma lista de oito cidades holandesas a visitar. Nos quatro dias que lá estivemos, pernoitámos cinco vezes no mesmo sítio e visitámos três cidades das listadas: Amsterdão, Roterdão e Alkmaar. Por visitar, entenda-se sair do carro e andar a pé, a observar os detalhes, as pessoas, as portas, as placas, os cantos, sentir os cheiros, ver as cores, sentir a chuva miudinha de curta duração a humidificar o cabelo. Ainda que Roterdão tenha sido só de passagem, para que o Dirk pagasse um copo à malta no Hotel New York, deu para verificar as diferenças arquitectónicas entre as duas grandes cidades, sendo que Roterdão é muito mais moderna, futurista e sem grandes complicações de trânsito, ao contrário de Amsterdão. Este barco é um dos pormenores decorativos do bar do Hotel, cuja entrada, caso escolhessemos o Hotel para o fazer, obrigava-nos a ir por uma porta giratória de madeira, pesadíssima, a condizer com o ambiente anos 30/40 do século passado: corrimões de ferro, elevadores "à mostra" com o mecanismo bem visível, recepção de hotel com ícones de carácter naútico, a realçarem a importância passada e actual do porto de Roterdão,  ícones absolutamente antiquados para a nossa época.
Em Alkmaar, cidade-natal do Dirk, e mais uma cidade de canais e pontes e barcos e canteiros e ruas pitorescas, ouvimos em pleno centro "apetece-me dar uma mija, foda-se", o que nos fez virar a cabeça para o lado e comentar que era preciso ter cuidado com o que falávamos. Cidadezinha agitada, onde decorria uma feira de queijos e outras iguarias gastronómicas, queijos do tamanho de pneus, alguns. Fotografei uma loja Gabor, marca portuguesa de calçado, bastante apreciado, a julgar pela quantidade de clientela na loja.
Sem planearmos muito, e de bicicleta alugada, atravessámos bosques frondosos, chegámos a encruzilhadas cuja placa só tinha uma letra e um número, passámos por casas habitadas no meio de florestas densas, até chegarmos a Naarden, uma vilazinha linda, murada, acolhedora, onde, na brincadeira, numa das simpáticas esplanadas holandesas, serviram um copito de vinho branco ao petiz só porque ele pediu. Tal como todas as vilas e locais pequenos por onde andámos, estava impecavelmente limpa, com canteiros coloridos e floridos em todas as esquinas e varandas e bancos de jardim, o que lhe imprimia uma vivacidade linda. Parecia uma pequena vilazinha de brincar, acabada de construir, de tão ordenada me pareceu. Os materiais para construção das pontes e das casas desmentiam claramente esta minha impressão. Esta não foi tirada por nós.
 
Durante este passeio, efectuado a um domingo, vimos imensas pessoas a percorrerem o mesmo trajecto, enquanto passeavam o cão, faziam jogging, ou davam a sua pedalada. Nada diferente relativamente ao que se vê por cá. Eu cheguei ao final do passeio, já perto do nosso hotel, com as pernas feitas num oito e a cervical  e o hióide a darem de si. E ainda não eram 3 da tarde. Depois de nos perdermos em Bussum, de bicicleta, fomos buscar o carro para almoçarmos, novamente em Bussum, e vermos que afinal o trajecto percorrido com o cu assente no selim nem tinha sido assim tão grande quanto me pareceu ao início da tarde. Questionei-me acerca de quanto duraria uma eventual Volta à Holanda em bicicleta. Não que alguma vez me atrevesse a fazer tal coisa, mas o território é propício a uma Volta bem diferente das que estamos habituados a assistir durente o Verão português.
O dia seguinte foi passado em Amsterdão, cidade cosmopolita, onde se corre o sério risco de sermos atropelados por uma bicicleta, mais do que por um carro. Juro que tinha cuidados redobrados a atravessar as estradas e as pontes, tão loucos eram os holandeses a guiá-las, sem qualquer temor e sem se coibírem de fazer tinir a campaínha. Senhoras de salto alto e vestidinho formal, senhores de fato e gravata com mochila às costas, rapazes e raparigas vestidos jovialmente em cima de bicicletas velhas e enferrujadas, um grupo de loiras de vestidos de cerimónia bem curtos e de stiletto...viu-se todo o tipo de gente e cabelos e roupas e maquilhagem a montá-las, com uma destreza de fazer inveja ao ciclista mais profissional. Não visitei qualquer museu nesta cidade. Não sou pessoa que se obrigue a visitar museus numa cidade estranha, muito menos quando há filas enormes para entrar na casa onde Anne Frank & família se refugiaram dos alemães. Fizemos as etapas que qualquer turista faz, penso eu, quando reserva apenas um dia para visitar a cidade: calcorrear as ruelas e pontes imundas, reveladoras dum fim-de-semana agitado, à procura de detalhes já mencionados (se passámos pelo Red Light District, não dei conta, talvez por ser ainda de manhã e o ambiente não ser o típico nocturno); visitar o ICEBAR cujo interior tinha a temperatura de -10 Celsius - literalmente a atracção mais cool do burgo (como se não nos bastasse a brisa matinal fresquinha); entrar e sair do Magna Plaza onde comprámos mais alguns imans para os frigoríficos (nosso e do cunhado); visitar as instalações Gassan onde vimos diamantes lapidados cujo valor de mercado pagaria as férias (as actuais e as futuras); dar a habitual voltinha de barco pelos canais, durante a qual fomos chamados à atenção para, entre muitos outros aspectos, a casa mais estreita da cidade, talvez uma das poucas sem gancho no topo da fachada, como se vê por esta foto tirada por nós; olhar para as coffee shops e mandar bocas uns aos outros e pensar que um dia o meu filho estará ali sem os pais; observar, muito, e reter na memória locais e pessoas e momentos e emoções.
Saímos da cidade ao final do dia, em direcção ao estádio do Ajax, onde tínhamos deixado a nossa viatura, num parque a bom preço (8 euros para pagar o parque com direito a bilhetes de metro e autocarro para 3 pessoas durante o dia inteiro foi uma pechincha) com vontade de, no dia seguinte, termos um dia mais calmo, sem tanta gente, ao nosso ritmo e sem sermos acompanhados por hordas de turistas de imensas nacionalidades. E de facto tivemo-lo, pois o dia seguinte foi passado na companhia do Dirk (o tal amigo holandês que veio ao nosso casamento e que já não tem a bicicleta que na altura usou para o efeito). A manhã foi passada em Madurodam - um parque temático interactivo ao qual chamámos "Holanda dos Pequeninos", onde o petiz se divertiu imenso e onde até eu gostaria de ter ficado mais uma horita para poder apreciar devidamente a loja das recordações, já que dela trouxe apenas as 5 tulipas coloridas, de madeira, que enfeitam um dos móveis da sala.
A tarde foi passada no carro, a apreciar a paisagem, que alternava entre campos verdes e longas extensões de água, que ladeavam as pequenas e simpáticas vilas povoadas por quintas e casas relativamente pequenas, de telhado alto e bastante inclinado, entre moínhos e museus e vacas holandesas. Nada diferentes das belgas ou das francesas ou das luxemburguesas. Sim, fiz questão de fotografar as vacas estrangeiras. 
De Roterdão a Utrecht, onde mora o Dirk, foi um pulinho. Conduzir nas vias rápidas holandesas é muito fácil: as estradas estão bem sinalizadas e os condutores são, regra geral, cumpridores. Não me recordo de, na Holanda, ter visto alguma ultrapassagem disparatada ou de passarmos por algum acidente rodoviário ou local que indiciasse tal. Ao contrário do que aconteceu no regresso, ao passar novamente por França, na zona a sul de Lyon.
Este mundo é mesmo muito pequeno. Foi o Dirk que me informou acerca da situação familiar e profissional da minha companheira de aventuras na Irlanda, há dezoito anos, rapariga com quem não contacto desde que acabámos o estágio. E ontem encontrei no supermercado a rapariga com quem costumava brincar na minha casa antiga e que, presentemente, reside na Holanda, casada com um deles. Ainda dizem que não há coincidências...
Das pessoas fiquei com muito boa impressão: cordiais, simpáticas, descontraídas e brincalhonas. Houve um holandês que, na grande cidade, e após ter verificado que "pai! PAI! PAIIIIII!" não chegava aos ouvidos do MQT, decidiu ele próprio chamar "PAAAIIIIIIIIIII " em altos berros, sem mais nem menos. Resultou, já que o pai em questão virou-se para trás , e deu azo a gargalhadas de toda a gente. Claro que a língua holandesa me soou a chinês, constantemente, e nem os meus conhecimentos de alemão, parcos, me ajudaram a percebê-los melhor. Não que precisasse, pois todos com quem falávamos, respondiam num inglês bastante fluente, perfeitamente perceptível. Quem me dera que os meus alunos falassem Inglês como ouvi alguns por lá. Se nas zonas mais rurais é verdade que os holandeses correspondem à imagem generalizada de "altos, loiros e de olhos azuis", também é verdade que há holandeses de toda a espécie e feitio, no que toca ao aspecto físico, especialmente em Amsterdão: não faltaram os baixinhos e os gorduchinhos e os de tez mais escura e feios e porcos e de aspecto duvidoso, conceito bastante relativo, claro.
Também fomos à praia e esta sou eu, a chegar lá, preparadíssima para enfrentar o frio e o vento, e a areia a bater-me nos pés. Eles ainda foram pôr o pezinho no Mar do Norte, mas eu não me atrevi a sair da areia. Ao contrário de uns loucos, loiros e altos, que vi saírem daquele mar gélido como se nada fosse e ainda deitarem-se ao sol a secar. Como se aquele céu e aquele sol secassem alguma coisa! A verdade é que estas condições meteorológicas não impediam as centenas de veraneantes de gozarem a sua tarde de sol. Se fosse em Portugal, eu diria que estava a ter um dia de inverno ventoso, mas até agradável.
  
Foi no dia da praia que também jantámos, no hotel em Huizen, as "Asian Mosselen" e umas outras, confeccionadas num molho à base de alho e que tinham um nome francês, de que já me esqueci. Uma caçarola para cada adulto. Tive que pedir ajuda, pois consegui sentir-me cheia à conta dos mexilhões saborosíssimos e do pão encharcado naquele molho divinal. Parece que tivemos sorte quanto à época escolhida para visitar o país, pois estamos na época dos mexilhões, iguaria bastante apreciada pelos locais e algo que não é para todas as bolsas, segundo o que o Dirk nos disse.
Huizen, à semelhança de muitos outros locais mais pequenos, é uma cidade piscatória, urbanisticamente organizada, com poucos ou nenhuns contrastes a nível da cor e formato das casas. Não sendo Huizen um local com grandes atracções turísticas, o hotel que escolhemos esteve sempre com lotação completa e durante os cinco pequenos-almoços, tivemos a companhia de muitas pessoas que já lá não estavam na manhã seguinte. A cidade está bem localizada, a nível rodoviário, pois em 30 minutos ou menos, consegue chegar-se às grandes cidades holandesas.



Do que é que não gostei na Holanda: do tempo incerto, que não era novidade antes de irmos; da pouca luminosidade do quarto no hotel, por sinal excelente e com um enquadramento paisagístico magnífico; da falta dum tapete de banho no duche (ridículo, eu sei); dos preços exorbitantes das refeições; e de só lá ter passado quatro dias, pois se pudesse, ainda lá estaria a esta hora.


Se eu não soubesse, até diria que era engenheiro

À conta desta pequena ponte, que é só a mais alta na Europa, viajámos mais cerca de hora e meia e mais cerca de 200 kms do que o percurso no google.maps nos indicava para chegar ao destino seguinte, Andorra-a-Velha. 
 Isto tudo porque alguém andou desde o início das férias a falar dela, da ponte, e de como gostaria de nela passar e patatipatatá e depois de tantas indecisões, e de cálculos de combustível e de horas a mais aqui e menos acolá, e de tanto me irritar com o dilema "passamos ou não passamos?", o MQT lá se decidiu a fazer-se a vontade. Foi na estação de serviço adjacente que vi umas sanitas à antiga, mas modernas, ou seja, um buraco no chão, com azulejo em redor. Eu e a fila feminina preferimos usar a toilette para as pessoas deficientes, apesar de as outras 4 casas de banho estarem livres de pessoas. Esquisitas, eu sei...