terça-feira, 9 de maio de 2006

Post a meias - parte VIII

Depois de termos lido os sete episódios iniciais, devidamente compilados num único blog que não o meu, a saga do Zequinha continua:
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A conversa com a sua querida mãezinha acerca da instalação de internet em casa nem correu muito mal, aliás, os receios do Zequinha mostraram-se totalmente infundados, já que a sua mãe mostrou-se bastante receptiva a estas inovações na sua humilde casa.
"Bem", pensou o Zequinha, "Podia ter sido pior: Afinal de contas é ela que vai continuar a pagar a conta telefónica e a alimentar os chulos da Portugal Telecom. Por isso mais vale aproveitar enquanto ela não se aperceber do buraco em que se meteu."
O que o Zequinha não sabia é que a sua doce e querida mãe era cliente assídua dum cybercafé discreto, localizado a cerca de 5 quarteirões da casa e que, quando supostamente saía para fazer as suas compras diárias ao mercado, metia mas era pernas ao caminho e toca a ir laurear a nêspera, ciberneticamente falando. Visitava-o enquanto o Zequinha cumpria as nove horas diárias de trabalho nas instalações prisionais e isto já vinha a acontecer há quase dois anos. Além de ser cliente assídua, já era carinhosa e marotamente tratada pelos outros frequentadores por "sexy mamma". O que ela mais gostava de fazer era entrar em salas de chat e fazer-se passar por rapariguinha de tenra idade e inocente, ainda pouco conhecedora da vida. No início, dava-lhe um gozo tremendo dar asas aos seus dotes de pseudo-actriz e fingir de alma e coração que era alguém novo naquelas andanças. À medida que as horas e os dias decorriam, tornou-se mais requintada no seu papel de fingidora. Chegou mesmo ao ponto de marcar "blind dates" com desconhecidos (uma das expressões que depressa aprendeu nas salas de chat), aos quais nunca compareceu.
Passado algum tempo, começou a sentir-se diferente e saturava-se depressa das conversas de chacha que encetava com outros intervenientes, na sua maioria do sexo oposto. Claro que acabou por descobrir o Hi5, do qual se tornou membro, constantemente a adicionar outras pessoas à sua já longa lista de amigos virtuais. Ali sentiu-se como que em casa durante algum tempo: adorava ver as fotografias e ler os comentários que os adolescentes deixavam uns aos outros. Sentia um grande prazer em mandar mensagens elogiosas relativamente a esta ou àquela pessoa, à sua pose, às suas tatuagens, ao que os adolescentes, eles e elas, inocentemente(?) exibiam. Quando começaram a chover elogios dos outros referente às "suas" duas fotos, sentiu-se elevada a um patamar que nunca na sua vida real tinha atingido. Que delícia ser o alvo das atenções de outros! E tudo isto à conta duma foto de corpo inteiro, duma rapariga que usava um decote provocante q.b., que a Mãe tinha encontrado numa das revistas que o Zequinha guardava religiosamente debaixo do colchão. Também ela tinha sido auto-didacta no que toca a computadores e uma das coisas que aprendeu foi a usar o scanner. Instrumentos ambos bastante úteis na tarefa que se tinha proposto: divertir-se e conhecer outras facetas que até então estavam bem retraídas. Este seu lado mais devasso nunca lhe seria revelado se continuasse a levar a sua vidinha pacata como membro digno, respeitado e cumpridor das leis paroquianas. Só se arrepende duma coisa: não ter aberto os olhos mais cedo para o que tão vasto mundo digital lhe proporcionava.
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Mas voltemos ao nosso Zequinha...
Os seus dias de trabalho na prisão já se tornavam bastante enfadonhos. As brincadeiras e comentários picantes dos outros presos não lhe aqueciam a alma. A ansiedade que o invadia por saber que dali a uns dias teria acesso ilimitado a um paraíso cibernético, a um outro mundo onde ninguém o incomodaria, onde se refugiaria para alimentar as suas necessidades mais básicas e prementes, angustiava-o e teve consciência que andava mais cabisbaixo, mais carrancudo e até indiferente às transacções comerciais que decorriam sem que o Director da prisão se apercebesse.
Quase desde o seu primeiro dia naquela instituição que o Zequinha ajudava os presos a colmatar as suas faltas: tabaco, revistas, sabonetes e até pó talco que um simpático senhor lhe oferecia semanalmente em saquinhos de plástico transparentes, tão minúsculos que cabiam dentro dos seus sapatos. Ele sentia-se útil sabendo que ajudava quem estava em situação tão periclitante. "Já lhes bastava estarem a cumprir pena. Porque não ajudá-los na sua higiene diária? Há que manter alguma dignidade", pensava o Zequinha.
Contudo, ultimamente, nem estas suas acções altruístas o satisfaziam. Queria sentir a mesma felicidade que um dia tinha sentido com a sua primeira namorada e mais tarde com a nova funcionária da prisão que acabou por se revelar uma rameira e inclusivé atirou-se à sua própria mãe. Questionava-se frequentemente: "Será que algum dia irei encontrar a minha alma gémea, aquela mulher que me aprecia pelo meu interior, pelos meus gestos simples e espontâneos? Que me acompanhe nas compras de roupa e acessórios?" É que, após ter decidido renovar o seu guarda-roupa e ter comprado o seu chapéu de cowboy, também o Zequinha descobriu em si um outro lado que desejava explorar: de manhã, quando tratava da sua higiene matinal, habituou-se a colocar este acessório e imaginava-se a cavalgar um raça pura, preto, de pêlo longo e luzidio. Se a sua imaginação lhe permitia tal, ele estava mortinho por experimentar montar uma mulher com o seu chapéu de cowboy.
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(to be continued in the original blog)