quinta-feira, 9 de junho de 2011

De tempos que já não voltam mais e da mercearia do Senhor Fernando


Isto é um fotografia. Foi tirada recentemente pelo Paulo Borges, meu conhecido e colega de profissão, e inicialmente publicada no blogue dele. Pedi-lhe autorização para a "roubar", pois, quando a vi, lembrei-me do Senhor Fernando e da sua mercearia na minha aldeia. Ele, o Paulo, autorizou-me a usá-la como inspiração do que escreverei de seguida.


A mercearia do Sr. Fernando localiza-se ao lado da primeira casa dos meus pais, já degradada, em ruínas, coberta de silvas, com vidros partidos e muito mau aspecto. Porque ficava mesmo à mão de semear e porque a minha mãe era cliente regular, que pagava sempre a horas, era muito habitual eu lá ir, ao domingo de manhã e já perto da hora de jantar, fazer os recadinhos que a minha mãe mandava: comprar uma embalagem de canela, voltar lá passados 5 minutos para pedir um pacote de acúcar....coisas do género. Havia essa relação quase familiar entre o Sr. Fernando, a sua família e a nossa. Nunca me mostraram má cara por causa do abuso da hora. Nem porque eu não levava dinheiro e simplesmente pedia para "pôr no livro". Conta essa que a minha mãe pagava mensalmente. Nunca deixou de o fazer.

A mercearia tinha as paredes revestidas de madeira, bem como o balcão, os armários e as prateleiras. Tal como mostra a fotografia do Paulo. Todos os produtos estavam bem à vista e era só pegar e pagar. É verdade que havia pouca variedade, comparada com a de hoje nas grandes superfícies, logo não havia muito por onde nos perdermos. Era aquilo e aquilo mesmo, todos os meses, sem excepção...até ao dia que apareceu o Feira Nova na vila (que agora é cidade).

As idas à mercearia foram diminuindo, pois a natureza prática e o facilitismo consumista duma grande superfície sobrepuseram-se à convivência familiar e social que caracterizavam aquele pequeno recanto de aldeia, que era também ponto de encontro habitual para os leitores de jornais diários. Não passava um dia sem dois dedos de conversa com o Senhor Fernando, quando eu regressava a casa, a pé, da escola que distava alguns quilómetros. Um excelente exercício diário, quer fizesse sol ou chuva. Nessa altura não se ouvia sequer falar em "pele com casca de laranja".

O Senhor Fernando era o dono orgulhoso dum Opel Kadett que, já nessa altura, era velhote, mas muito bem tratado. Um dia, numa das nossas idas à capital, qual não foi o nosso espanto, vimos estacionado em frente ao cinema São Jorge (ainda existe com este nome?) um carro igualzinho ao do Senhor Fernando. Quase não acreditámos, mas era mesmo o dele e ele ali bem perto. O mundo é mesmo pequeno.

Estes tempos de mercearia, o seu encanto, perderam-se totalmente. O edifício ainda está de pé. Quando vou à aldeia, ao fim-de-semana, e passo naquela rua, encontro-a fechada. Interrogo-me se de vez.