terça-feira, 25 de julho de 2006

E agora?

Que inferno! As mudanças nunca mais acabavam! Deveria ter pensado duas vezes quando considerou a hipótese de se mudar para um apartamento mais pequeno. Tudo o que lhe pertencia e que anteriormente cabia num T4 estava agora encaixotado e etiquetado de acordo com tamanho, volume, tipo e utilidade. Nunca mais se veria livre de tal tarefa dantesca. Ainda mais que arrumações não eram consigo. Uma característica perfeitamente notória ao longo de todo o ano, em que permitia que papéis, revistas, notificações, coisas velhas se amontoassem no seu escritório e decorassem não só o parapeito da janela como parte do chão. Consolava-lhe a ideia de que a mudança seria sempre para melhor, como diziam as vozes populares. Em termos monetários, iria poupar umas coroas. Em termos pessoais, iria usufruir da solidão a que tinha direito quando muito bem lhe aprouvesse. Em termos sociais, iria ser uma pessoa bem mais selectiva do que tinha sido até ali. As multidões tornaram-se asfixiantes. Evitava a todo o custo ir a lugares que sabia serem bastante populados e populares. No seu tempo de lazer, saía para levar a cabo o que realmente lhe dava prazer: correr, correr e perder a noção do tempo, correr, perder a noção do tempo e cansar-se até à exaustão. Tornou-se com o decorrer do tempo e as partidas da vida uma pessoa solitária, que apreciava o seu canto, que se apreciava plenamente e era feliz assim. Não se considerava do género "eremita": não lhe era doloroso vestir a pele de pessoa extrovertida e conviver com alguns dos seus familiares naqueles dias marcados pelo calendário social. Bem pelo contrário, esta dualidade na sua personalidade era o que ainda lhe permitia manter um certo equilíbrio interior. No seu dia-a-dia, era, pensava sobre si, uma pessoa perfeitamente normal e ordinária, que não se destacava em nada de todos os outros cordeirinhos. Conseguia trabalhar em grupo, fazer parte de equipas, incentivar os outros a darem o seu melhor, contar piadas, partilhar alguns, poucos, aspectos da sua vida pessoal. Gostava de si assim.
E gostava principalmente de ter mudado de ares.

2 comentários:

  1. andas a trabalhar num conto (romance?)... estou a gostar :)

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  2. Por falar em ares, tenho a ar condicionado avariado :-)))

    (Tás inspirada hoje ;-))

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Olha, apetece-me moderar outra vez! Rais' partam lá isto!

P.S.: Não sou responsável por aquelas letrinhas e números enfadonhos que pedem aos robots que cá vêem ler-nos.