sexta-feira, 28 de julho de 2006

Aurora premonitória

Hoje ia ser um dia diferente, ela sentia-o. Tinha acordado mais cedo, inclusive sem necessidade de despertador, o que não era habitual. Sentia-se bem, forte, determinada, sorridente, com vontade de enfrentar o mundo de alma e cara lavadas. A manhã, ainda orvalhada mas já evidenciando um dia luminoso e ameno, só podia ser um bom prenúncio. E com um dia assim, há que o aproveitar da melhor maneira, de máquina fotográfica em redor do pescoço e toca a dar ao dedinho, pensou ela. O duche matinal foi substituído por um longo banho de imersão. Só não voltou a adormecer porque a música de fundo seleccionada era demasiado ... sonora. Mas não tão barulhenta que pudesse incomodar os seus vizinhos. O violino electrónico da Vanessa Mae incutia-lhe ritmo, energia, vontade de acelerar, de dançar, de sapatear enquanto preparava o seu pequeno-almoço...Não, hoje não ficaria em casa a tomar o seu pão seco, torrado, do dia anterior e a ver as notícias da manhã. Sem se preocupar em arrumar o que já tinha desarrumado, arranjou-se, colocou a máquina dentro da mochila, saltou para dentro dos seus ténis velhos e algo mal cheirosos e saiu porta fora, com um ar confiante. Nas escadas cruzou-se com a Dª Albertina que já regressava a casa vinda da padaria. Deu-lhe os "bons dias" em tom cantado e com um sorriso franco. O aroma a pão quente acabado de sair do forno aumentou-lhe o apetite e recordou-a que, na véspera, o seu jantar tinha sido apenas uma taça de cereais em frente a uma televisão deplorável. É o que dá não ter horas para sair do escritório. Sai-se quando o trabalho acaba, não quando o relógio manda. Como o trabalho parecia nunca acabar, ontem saiu a horas indecentemente tardias, depois de o guarda-nocturno ter feito a sua primeira ronda ao edifício. A Dª Albertina foi a primeira pessoa com quem tomou conhecimento quando decidiu mudar-se para aquele prédio. Uma senhora distinta, com cabelos brancos que impunham respeito, sempre vestida com bom gosto, sempre maquilhada e perfumada, sempre pronta para qualquer ocasião. Fazia-a lembrar a sua avó materna. A Dª Albertina era uma pessoa interessantíssima que sabia contar histórias, que sabia encantar quem a escutasse. Já tinham passado alguns serões juntas e sempre se sentiu bem acolhida por esta senhora que emanava elegância, confiança e sabedoria, próprias duma pessoa que soube viver a vida e respeitar os outros. Como a invejava! Mas hoje não ia deixar-se levar por estes pensamentos deprimentes, Hoje tinha outros planos e nada nem ninguém iriam interferir. Na padaria, onde ainda não era considerada cliente habitual, sentiu o olhar inquisidor do dono, como que a perguntar "o que é que lhe deu para vir cá hoje e tão cedo?". "Pois bem, nem o teu sorriso mais simpático me vai fazer falar e contar-te os meus porquês", pensou ela. Já numa mesa a um canto, deu uma vista de olhos pelos jornais diários. Começou, como sempre fazia desde que o acidente ocorreu, pelo obituário - ninguém que conhecesse - e ia lendo as letras gordas, os títulos, das últimas para as páginas iniciais. Não estava com paciência para leituras demoradas. Sentia-se excitada, a fervilhar por dentro. Não sabia muito bem porquê, mas gostava desta sensação. Saber que a sua preciosa máquina fotográfica iria daqui a pouco recomeçar a registar aqueles detalhes tão óbvios para o mais comum dos mortais, mas tão escondidos para a maioria dos transeuntes que passavam sem ver, acalentava-lhe ainda mais a esperança de um dia fantástico. Sentia que hoje iria recuperar um dos seus velhos hábitos que tanto prazer lhe tinha dado no passado. Tinha neste momento a oportunidade de escolher por onde queria começar. Decidiu-se pela Avenida do Mar, que sabia que terminava na zona degradada da cidade onde ainda habitavam alguns pescadores e as suas numerosas famílias. Tinha esperança de poder encontrar aquele que a retirou do carro acidentado, aquele que não teve nojo de tocar na sua pele naturalmente escura, aquele que não olhou para o lado perante duas pessoas pretas a precisarem urgentemente de ajuda médica.

1 comentário:

  1. estás a escrever um romance fragmentário! E eu estou a gostar!!!! Continua, continua! :)
    Então agora ela tem raízes africanas. O estúpido disto é que se imagina sempre uma protagonista caucasiana. Mas acho que isso não é por preconceito. É porque imaginamos sempre os outros à nossa semelhança. O que não é negativo, porque a "revelação" causa surpresa e isso é sempre bom.

    ResponderEliminar

Olha, apetece-me moderar outra vez! Rais' partam lá isto!

P.S.: Não sou responsável por aquelas letrinhas e números enfadonhos que pedem aos robots que cá vêem ler-nos.