sexta-feira, 5 de maio de 2006

O Teste de Turing

Até há 2 dias atrás eu não fazia a menor ideia do que era este teste. Ouvi, ou melhor, li a expressão pela primeira vez esta semana, numa short story da autora neo-zelandesa Yvonne Eve Walus, que se chama "Alice in Virtual Reality". Esta senhora, actualmente com 33 anos , colecciona bacharelatos em ciências, um mestrado e um doutoramento em Matemática -- não sei em que ramo desta ciência.
À primeira leitura, é apenas uma história que retrata a evolução duma adolescente perante computadores e jogos, da gradual alienação que se vai apoderando da miúda, do distanciamento psicológico que caracteriza a sua relação de adulta com a pessoa que passa a ser seu marido. Contudo, é uma história que carece de segunda e terceira e quarta leituras e a cada uma delas há pormenores novos que se destacam, referências literárias, lemas, citações filosóficas, dúvidas que se levantam, questões ético-religiosas, expressões que são familiares, que remetem para leituras passadas.
Um dos pontos de interrogação registados por mim assinala precisamente "the Turing test", cujo objectivo - descobri enquanto pecava no Google - seria averiguar se uma máquina é inteligente e consegue responder a perguntas tal como faria um ser humano. Há 3 elementos envolvidos: uma máquina e dois humanos, um deles é o interrogador que não sabe a quem está a colocar as questões, ou melhor, não sabe quais são as respostas do outro elemento humano nem as da máquina. Caso o interrogador não distinga a origem das respostas, então, segundo Turing (matemático e autor do teste, aprisionado e condenado por práticas homossexuais, que acabou por se suicidar na prisão com uma maça na qual tinha colocado cianeto) não há qualquer argumento válido para que a máquina não possa ser considerada "inteligente".
Ora bem...este paleio todo vai de encontro ao que se passa na short story. Desde os seus 15 anitos que esta Alice se debate com a seguinte dúvida: um computador consegue pensar, raciocinar, contra-argumentar? Possui uma mente, uma alma? Tem sentimentos? O jogo que lhe oferecem aos 16 anos, "Welcome to the World of Virtual Reality", permite-lhe estabelecer um diálogo socrático com a máquina. Esta não satisfaz a curiosidade da Alice, apenas a espicaça ainda mais. Responde-lhe com uma série de questões existencialistas e de ordem prática que confundem e cansam ainda mais Alice. A história acaba com uma Alice adulta rodeada de software e hardware do mais sofisticado que há, comprado à custa da penhora da própria mobília, tal é a dependência que ela nunca admite prejudicar a sua vida real.
A temática da Inteligência Artificial não é fácil de abordar, como eu já descobri in loco, e nem aqui a leiga tem a pretensão de o fazer profundamente. Mas de facto, perante tanta evolução tecnológica que nos facilita a vida, permite-nos ter mais tempo livre (supostamente), é apenas natural que me questione se um dia nós, seres inteligentes (ok, aqui obrigo-me a colocar um ?), não seremos ultrapassados pelas máquinas, não só nos nossos movimentos e reacções físicas, como também nos nossos processos de cogitação (ah palavra cara!). Se um computador consegue derrotar o campeão mundial de xadrez, por duas ou 3 vezes, porque não poderá uma máquina manter-se a si própria e criar algo? Será que a criação ultrapassará o criador? Não sei quem primeiro apresentou esta ideia ou quando (M. Shelley, no "Frankenstein"?), mas parece-me bastante actual.
O meu cepticismo não me permite ir mais além do que aquilo que já existe e que consigo apreender com os meus cinco sentidos. Não consigo imaginar-me a viver num mundo rodeado por mais máquinas do que as que já existem. A verdade é que a minha avó de 74 anos ainda hoje não acredita que o Homem pôs o seu pézinho na Lua, e contudo sabemos e acreditamos que eles foram mesmo lá. Por isso, quem sabe se um dia destes não nos cruzamos com um robozito à saída do prédio e que nos cumprimente com um "Bom dia" mecânico e sorridente.

5 comentários:

  1. o xadrez são regras bem definidas: o computador segue-as; a humanidade está em criá-las.

    acredito que mais tarde ou mais cedo (mais tarde talvez) o computador (ou equivalente) seja capaz de por si e sem a «alimentação» humana apreender e determinar-se por si, mas para já não perco muito tempo a pensar nisso

    além de que o xadrez tem muito pouco de humano, caraças, ver dois marmanjões quase de cócoras a olhar para uns mecos minúsculos num tabuleiro aos quadradinhos é algo gay.

    quanto à desconfiança da tua avó quanto à lua, é porque ainda não viu o Espaço 1999.

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  2. Concordo com o cogumelo, pois o computador está a seguir as regras criadas por humanos e a aprendizagem é algo diferente. No dia em que um computador, "inteligência artificial" inventar algo aí sim poderemos falar em aprendizagem das máquinas. No caso do Xadrez, o computador, "Deep Blue" se não estou em erro, perdeu uma vez, mas estava programado para aprender e o cérebro humano tem limitações apesar da capacidade de aprendizagem. No fundo é um jogo injusto para os humanos, pois nós dispomos da função erro ou nervos que nos faz vacilar de vez em qd.

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  3. na minha perspectiva técnico-antropológica vejo como forte possibilidade a criação ultrapassar o criador, porque esta criação é mais uma agregação de saber que o homem criador nunca conseguiu agregar de uma forma viva entre os da sua espécie.

    acredito num futuro com mais máquinas inteligentes, que nos ajudarão a viver melhor e com mais qualidade.
    o problema é que quem faz essas máquinas nem sempre pensa no bem da humanidade e valores como o poder, controlo, dinheiro poderão sobrepor-se.
    por isso deveremos estar atentos.

    ass: o
    autor da importante descoberta sobre a estupidez, provincianismo, saloismo,
    parvoeira e outras coisas menos simpáticas dos portugueses

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  4. Epá, eu portantus... exacto. entendes? :P

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  5. Nem acredita a tua avó nem acreditam as minhas, se bem que estas são bastante mais "crescidinhas"...lol

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Olha, apetece-me moderar outra vez! Rais' partam lá isto!

P.S.: Não sou responsável por aquelas letrinhas e números enfadonhos que pedem aos robots que cá vêem ler-nos.